2 de março de 2017

A organização no cotidiano de grandes e pequenos


O cantinho das brincadeiras não precisa ser, necessariamente, bagunçado. 
Noções básicas de organização são importantes para o brincar bem e nas demais fases da nossa vida.
Imagem Pinterest.


Reclamação recorrente nas rodinhas de pais: "Meu filho não arruma os brinquedos". "Eu tento ensinar o meu filho a arrumar os brinquedos dele mas eu sempre acabo arrumando tudo". "Eu vivo catando brinquedos pelo chão, espalhados pela casa".

Organização é um tema que atravessa a nossa vida, da infância até os nossos últimos dias. Curiosamente não recebemos nenhum "treinamento básico" no assunto. Não aprendemos isso em casa (apesar de mães e pais viverem gritando para os filhos arrumarem os seus quartos sob pena de ficarem sem o tablet ou videogame). Não aprendemos na escola e não aprendemos em lugar nenhum as dicas básicas de como incorporar rotinas de organização ao nosso cotidiano. Alguns de nós, quando adultos, pesquisam na internet, em livros e blogs. Mas somente alguns de nós, os demais passam a vida sofrendo com a bagunça, a desorganização e suas desagradáveis consequências e sub-produtos.

A organização é mais um daqueles sub-temas de gerenciamento da vida doméstica que, quando negligenciado, rouba nosso tempo produtivo, de lazer e ócio. Nos faz perder tempo e gastar dinheiro, além de prejudicar bastante o usufruto do nosso espaço e dos bens que possuímos. 

Tenho algumas hipóteses sobre o por quê as crianças não arrumam seus brinquedos e seus quartos. E talvez isso nos ajude a compreender também porque os adultos são tão resistentes ao tema quanto os pequenos.

A primeira delas é que nós, pais e mães, não gostamos de arrumar a nossa casa e acabamos passando para as crianças essa mensagem negativa de que limpar, arrumar, cuidar e organizar é uma tarefa menor, secundária, sem valor, chata mesmo, além de ser uma fonte de reclamações no nosso dia-a-dia. Quando, ao contrário, é uma atitude digna de zelo, de cuidado e de amor com nossos pertences. 

Uma casinha limpa, arrumada e sempre pronta para os bons momentos da vida ao lado de quem amamos. Por este ponto de vista, organizar é uma atividade cotidiana primordial.
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A segunda é que alimentamos algumas ilusões quanto a decoração dos espaços do nosso lar. Queremos que nossas casas se pareçam com revistas e blogs de decoração - aqueles espaços impecáveis que parecem não ser habitados por ninguém, exceto pelos produtores que arrumaram tudo para a foto da revista. Com isso, não desenvolvemos um "saber decorador" para a vida real, para o cotidiano da família, para a funcionalidade e conforto. Em outras palavras, acabamos decorando nosso lar com tanta complicação que não me admira que as crianças não sejam capazes de arrumar tudo como estava antes da brincadeira. Se o espaço tem uma organização simples fica mais fácil para crianças e adultos devolverem os objetos para seus lugares originais, e manter uma ordem mínima no lar.


Quarto infantil de revista. Na fase do bebê tudo funciona, mas é impensável manter um ambiente como este minimamente arrumado após o primeiro ano de vida.  Observe as áreas inacessíveis para a criança como o alto da estante e na janela. A criança torna-se dependente de um adulto para retirar e guardar os próprios brinquedos. 
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A terceira hipótese é um produto da soma das duas anteriores. Se organizar é chato (hipótese 1) e complicado (2), a tarefa de educar as crianças para esse fim fica insustentável ou, no mínimo,  artificial. A fala do adulto não é verdadeira para a criança, pois não encontra base emocional - não adianta dizer que "guardar seus brinquedos é legal!" quando na verdade o adulto acha uma tarefa funesta. Nem se apóia em uma estrutura prática, ou seja, o espaço e os móveis não contribuem para a execução da tarefa de guardar e organizar. 

Se você vive esse dilema na sua casa, com a sua família, quero sugerir algumas ações simples que podem contribuir para a mudança desse quadro no cotidiano. 

* Quem é pai ou mãe sabe que é um fato que as crianças reproduzem o que os pais fazem. Se os pais não tem o hábito de limpar, arrumar, organizar a casa, as crianças também não absorverão esse hábito. Se as crianças sempre vêm uma empregada fazendo esse serviço, elas vão tirar suas próprias conclusões, como deixar sempre para alguém a tarefa da limpeza e arrumação ou exigir recompensas (uma espécie de salário em forma de presentes) por arrumar seus brinquedos e quartos, o que ao meu ver não é uma atitude saudável. 

* Disponha-se a arrumar o quarto ou os brinquedos das crianças com boa vontade, e convide-os a participar. Façam uma espécie de mutirão. Enquanto um limpa, o outro guarda. Lembre-se de não reclamar do trabalho. Aproveite a oportunidade para observar o estado em que estão os brinquedos, faça observações positivas sobre este ou aquele brinquedo.

* Tente adquirir o hábito de não reclamar das tarefas domésticas de um modo geral. Cozinhar, arrumar a mesa, limpar, lavar, passar. Faça uma reflexão sobre os cuidados, o zelo e o amor embutidos nessas atividades. Deixe suas crianças entrarem em contato com esses momentos. Não as exclua. Explique a importância de cada uma delas para a construção de um dia-a-dia e uma vida mais saudável (cozinhando em casa), aconchegante (vestindo roupas limpas e macias após serem passadas) e livre (habitando um espaço limpo e organizado).




Mais um exemplo de áreas de difícil acesso a criança. Os livros não estão ao alcance da criança e com certeza ela tentará subir na mesa para pegá-los, correndo o risco de cair e se machucar.
Livros, brinquedos e cestos no alto da estante, outro exemplo de área inacessível.

Imagem Pinterest.



* Crie uma decoração acessível a criança. Pense em estantes baixas, caixas, cestos, mesinhas da altura da criança e feitas para elas. Invista em uma decoração que estimule a independência da criança. Que ela mesma possa alcançar os brinquedos, pegar seus livros e depois recolocá-los no lugar de onde os tirou.
Tenha em mente que se você guarda os brinquedos em estantes altas, somente você poderá guardá-los. Ou forçará a criança a subir em bancos e cadeiras podendo provocar acidentes. É mais certo que os brinquedos não sejam guardados nunca. Sobre esse assunto vale pesquisar as metodologias Waldorf e Montessori sobre a organização do espaço do brincar e o quarto da criança.


Uma estante baixa, da altura da criança. Cestos para organizar os diferentes tipos de brinquedos.
Fica mais fácil educar seu filho em um espaço pensado para ele.
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Proposta de decoração Waldorf que utiliza materiais naturais como madeira e cestos de palha. Preza a acessibilidade, integração e independência da criança.
Imagem Pinterest.


* Cultive o hábito de guardar os brinquedos individualmente, cada um na sua caixa, saquinho ou cesto, sobretudo brinquedos compostos por muitas partes e peças. É comum guardar todos os brinquedos desmontados dentro de um grande saco ou cesto, onde você simplesmente joga tudo dentro ao final do dia. Apesar dessa opção parecer prática, garanto a você que ela não é boa, prática nem educativa. Imagine que, todas as vezes que a criança quiser pegar um brinquedo, ela terá que virar aquele saco enorme e despejar tudo no chão. Se ela quer brincar com os blocos de montar, ela não vai conseguir fazer isso com sucesso, pois estará misturado com outras dezenas de partes de outros brinquedos. A criança perde o foco e a brincadeira acaba, quase sempre, se transformando em jogar pedaços de brinquedos pela casa, espalhando a bagunça ainda mais. Se cada brinquedo tem o seu lugar, fica fácil ela fazer escolhas, brincar e depois guardar. Ela pode pegar dois, três ou quatro de uma vez, mas não todos.


Cada coisa em seu lugar.
Um espaço só para os bichinhos de pelúcia, outro só para os livros. Logo as crianças aprendem onde fica cada brinquedo e fica mais fácil conduzir a tarefa de educá-los para arrumar e cuidar de suas coisas.
Imagem Pinterest.
 


Quer desenhar? Nã precisa desmontar o quarto inteiro nem sair por aí catando lápis de cor, canetinha e papel.  Com um balde como este (ou uma caixa) fica fácil reunir o material, e na hora de guardar também.
Imagem Pinterest.


É possível educar bem os seus filhos para que eles tenham noções básicas de organização. Mas, antes de exigir dos pequenos que saiam catando tudo que espalharam, é necessário que os pais façam um planejamento da decoração e de uma estratégia de organização simples, ao alcance do entendimento das crianças. Depois, trabalhem firme na repetição. Guarde sempre no mesmo lugar, do mesmo jeito. Se a regra é guardar após terminar de brincar, não abra mão. Se a regra é guardar só no final do dia, não ceda ao cansaço. A rotina e a repetição operam milagres no processo educativo das crianças.

Esses são exemplos simples mas que coloquei em prática desde que minha filha começou a andar e interagir com os brinquedos. Garanto que melhorou o nosso dia-a-dia aqui em casa, minimizando nosso trabalho de guardar, reduzindo o estresse e a tensão com a criança no final do dia, quando já estamos todos cansados. Atitudes simples que contribuíram para que nossa casa permaneça arrumada, dentro de uma ordem mínima. Claro que há dias de maiores bagunças mas isso não é - repito, não é - nosso cotidiano. E, vale lembrar, organização não exige um espaço grande nem dinheiro. Você não precisa de um apartamento maior para se tornar uma pessoa organizada nem para educar seus filhos para serem pessoas organizadas. Nem precisa gastar dinheiro comprando itens específicos de organização. O que realmente faz a diferença é o planejamento, mudança de atitude e rotina. Pode acreditar.


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